sexta-feira, janeiro 22, 2010

A VISÃO VEDICA DO YOGA, por Miguel Homem


O Yoga tornou-se popular. Hoje em dia quase todos já ouviram falar de Yoga, a maior parte das vezes associado a posições contorcionistas de um artista de circo.

Nem sempre a comunicação social ajuda a transmitir o que seja o Yoga e, verdade seja dita, nem sempre aqueles que se dedicam ao seu ensino ou prática perceberam verdadeiramente a que almeja o Yoga.

A observação da realidade mostra-nos que todos os seres humanos estão envolvidos em diferentes tipos de busca nas suas vidas. Desde a infância vemos a criança esforçar-se para conseguir algo, primeiro a comida, depois brinquedos e em adulto continua esse esforço em direcção a brinquedos maiores, a casa, carro e outros objectos. Percebemos ainda que mesmo havendo um padrão de busca comum, pessoas diferentes perseguem coisas diferentes.

Dir-se-á que, à primeira vista, existem tantas buscas quantos seres humanos. No entanto, mesmo quando parecem diferentes, se analisarmos, percebemos que em todas elas há algo em comum que todos buscam de forma uniforme: essa coisa comum é a aquisição de alegria, felicidade (sukha prápti).

Uma pessoa pensa que felicidade existe na forma de ter uma casa e família, outra julga que é ter muito dinheiro, outra ser famoso, alguns procuram na música, etc. Mesmo sendo externamente diferentes em todas essas buscas cada um de nós só procura paz, conforto e felicidade. Não só todas as pessoas, mas todos os seres buscam a felicidade (sukha práptaye pravrttih). Vemos também que, por vezes, o esforço é para se libertar de algo, como numa visita ao médico em que nos queremos libertar da dor ou doença, ou ainda com qualquer objecto, quando queremos vender uma casa. Assim, a perseguição não é só de felicidade (sukham), mas também da libertação do sofrimento.

É então claro que toda a busca humana é no sentido de conseguir algo ou libertar-se de algo. Por trás de toda a conquista (coisas, relações) apenas procuramos felicidade (sukham pravrttih). Mesmo quando o que queremos é libertar-nos de coisas, objectos, relações, o que procuramos e essencialmente o mesmo. Quando nos queremos desfazer da tv antiga, é porque vemos infelicidade (duhkham) na tv – duhkham nivrttih.

Prosseguindo a nossa análise, compreendemos que queremos felicidade (sukham), sem qualquer mistura de sofrimento (duhkham). Queremos ser felizes sem qualquer perturbação. Todos procuram felicidade pura – kevalam sukham. Mas não queremos só felicidade pura. Por quanto tempo queremos felicidade? Em que dia, a que horas? Percebemos que não só queremos felicidade pura, mas queremos felicidade permanente (nityam sukham). E depois de a alcançarmos o esforço e a busca não acabam. Agora trabalhamos também para a manter. E por fim, queremos felicidade de uma ordem que não possa ser aumentada ou melhorada. A geração dos meus pais começou por ter uma Tv a preto e branco, depois veio a tv a cores, a seguir a tv plasma e qualquer dia a tv a 3 dimensões. Queremos sempre mais. Queremos o máximo de felicidade, (niradishayam sukham), mas só o infinito não pode ser melhorado e aumentado.

Ou seja, queremos felicidade infinita em quantidade, em qualidade e em duração. A questão seguinte é: somos bem sucedidos neste esforço? Em crianças começámos esta luta e continuamos... alguém no momento da morte afirma estar tudo bem? Não querer mais nada? Não! Continuamos com o sentimento de falta, de carência de algo. Algumas pessoas reconhecem este problema cedo, mas a maioria, continua a perseguição e morre perseguindo sem perceber que o problema foi mal diagnosticado.

As escrituras do Yoga e o ensinamento do Yoga discutem este problema fundamental, e segundo elas, de facto, não estamos a conseguir ter sucesso nesta busca, mas mais, nunca teremos sucesso. Enquanto nos esforçarmos para alcançar felicidade permanente (nitya ánandah) nunca o conseguiremos. E não o conseguiremos porque a abordagem ao problema está errada.

Vamos imaginar que estamos no meio da natureza e decidimos fazer um chá para aquecer enquanto apreciamos a natureza. Acendemos uma lareira, criamos uma estrutura própria para o efeito e aquecemos um pote de água. Naturalmente o pote aquece e depois aquece a água. Agora pergunto porque está a água quente? A água que normalmente é fria, adquire uma nova propriedade em contacto com o tacho que é quente, e torna-se quente. Porque está a água quente? Porque está o tacho quente? Por estar em contacto com o fogo. E porque está o fogo quente? Porque é fogo, porque é a sua natureza intrínseca. Seria o mesmo que perguntar porque é o gelo frio ou o açúcar doce. O tacho está quente porque empresta essa característica do fogo, é um atributo incidental. Da mesma forma, o calor na água é um atributo incidental. Assim, reconhecemos dois tipos de atributos, intrínsecos e incidentais. Se analisarmos mais profundamente descobrimos que a água tem o seu calor emprestado do fogo, percebemos que o calor na água é um atributo dependente, enquanto o calor do fogo sendo intrínseco, é um atributo independente. Uma vez que o calor no fogo é intrínseco e independente, mesmo que removamos o tacho e a água, o calor permanece, com ou sem tacho, de manhã ou de tarde, na Índia ou no Japão, em qualquer tempo, espaço ou condição, kála, desha, avasthá. Assim a natureza intrínseca é sempre uma propriedade permanente. Por outro lado, a água é quente por causa do fogo. Quando o fogo é afastado, o calor desaparece. O atributo incidental é dependente e por isso também impermanente.

Retomemos agora a nossa busca original. Em que é que estamos interessados? Felicidade (sukham ánandah). E que tipo de felicidade queremos? Permanente. E o que fazemos? Trabalhamos para conseguir felicidade ajustando as condições externas, ao adquirir coisas e relações novas. Quando conseguimos felicidade do mundo exterior, essa felicidade pertence a que categoria? Incidental, dependente, impermanente ou intrínseca, independente e permanente? Música, objectos, relações, se conseguimos alguma felicidade do exterior, ela é emprestada e incidental, dependente e impermanente. Assim, se a conseguimos, é certo que a vamos perder também. Esforçar-se para conseguir felicidade permanente (nitya ánanda) é uma contradição em termos. Porque se a conseguimos ela e incidental, e se é incidental ela é dependente e por isso impermanente. Não podemos esperar do mundo felicidade permanente.

Perguntar-se-á então o que fazer? Se existe felicidade permanente (nitya sukham) não pode ser conquistada, porque se é permanente (nityam) não depende de outros factores e tem de ser a minha natureza intrínseca. Só se descobrir a felicidade (ánanda) como sendo a minha verdadeira natureza, só então, poderei esperar ser permanentemente feliz – Svarúpa ánandah eva nitya ánandah.

A questão é que esta visão é difícil de aceitar, porque não é essa a nossa experiência e o simples facto de buscarmos parece negá-lo. Não fosse assim, porque buscaria? Ou porque não tenho o que procuro ou porque ignoro que não tenho. A verdade é que procuramos a felicidade porque não a reconhecemos em nós, somos ignorantes dela. Se este facto não é conhecido, e se continuamos a persegui-lo, o que fazer? A solução não é adquirir (pravrtti) nem ver-se livre (nivrtti), mas conhecimento (jñánam), conhecermos quem somos, quem é este Eu auto-evidente. A solução é auto-conhecimento (átmá vidya, svarúpa jñánam).

Sobre este tema versa o ensinamento do Yoga, conforme foi discutido na parte final dos Vedas, chamada Upanishads. No Yoga encontramos o ensinamento, a preparação para ele e os meios para que esta compreensão e visão se estabeleçam.


Miguel Homem é professor de Yoga no Porto. Edita o site www.dharmabindu.com
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segunda-feira, dezembro 07, 2009

domingo, novembro 22, 2009

VÍDEOS SOBRE VEGETARIANISMO



AINDA ACHA QUE NÃO TEM A VER CONSIGO?


1ª norma ética do Yoga e de toda a vida: Ahimsá, não-violência. Ahimsá nada mais é que a aplicação do dharma do senso comum: não fazer aos outros o que não gosto que me façam a mim.




Nas palavras do Swami Dayananda:
"Uma vez que me foi dado livre arbítrio para escolher o alimento que como para manter minha vida, preciso encontrar alguma norma para me guiar na escolha dessa comida. A dávida da livre escolha traz consigo a responsabilidade de seguir uma norma ética no exercício dessa escolha. Qual é a norma "dhármica" e de bom senso para a escolha do meu alimento? Os Vedas dizem-me: não cause dano. Meu bom senso diz-me que não deveria fazer de "alguém" o meu jantar, uma vez que não quero ser o jantar de "alguém". O que é um "alguém"? As criaturas vivas que possuem meios para fugir de mim e o equipamento para gritar em protesto ou lutar contra mim são mais um "alguém" do que plantas, enraizadas num lugar que silenciosamente abandonam seus frutos para serem comidos, em geral, sem com isso abdicar de suas vidas."[1]

E aqui seguem alguns videos interessantes:

Meet your Meat

Three Reasons Not to Eat Fish

A Life Conected



[1] texto extraído do livro "O Valor dos Valores" do Swami Dayananda, Vidya Mandir editorial

sábado, outubro 24, 2009

O EGO DO PROFESSOR DE YOGA


Esta reflexão resulta de uma observação atenta de mim mesmo como praticante e professor de Yoga nos últimos 8 anos e meio. Boa parte deste texto é autobiográfico, coisas que fiz, que faço, outras que já melhorei e outras tantas que tenho que melhorar. Aqui e ali juntei características e aspectos de outros professores que tenho observado no diverso mundo Yogi da actualidade.


Eu sou professor de Yoga!

Hoje em dia existe um número crescente de praticantes de Yoga, nomeadamente no Ocidente. E com isso sobe também o número de instrutores, professores e mestres. Encontramos todo o tipo de oferta para a pessoa que se quer tornar professor desta bela e antiga cultura que é o Yoga. Mas será que todos os que se tornam professores têm consciência daquilo que representa ser professor de Yoga?

Facilmente uma pessoa pode tirar um curso de um mês, uma semana e até um fim-de-semana e tornar-se num “professor” de Yoga. Qualquer pessoa, mesmo sem qualquer ideia do que seja o Yoga pode, em pouco tempo, estar a ensinar a uma outra. Muitas dessas pessoas, descontentes com a sua profissão, acham no Yoga uma oportunidade para salvar a sua vida. Mas, uma coisa é praticar o Yoga e outra é ensiná-lo!

Então temos por aí muito boa gente ensinando com pouquíssima prática, algum conhecimento de técnicas e quase nada do contexto e tradição. Falta, em muitos casos, a presença de alguém que a acompanhe e ensine, a prática, o amadurecimento, os valores, etc. Mas falarei sobre isso mais adiante.

O problema surge quando o professor de Yoga se acha o máximo apenas por isso mesmo, ser professor de Yoga. Aí começa a história do ego do professor de Yoga. O ego é algo importante na nossa vida, no sentido que é através dele que o indivíduo estabelece relações com os demais indivíduos. O ego em si não é um problema, um ego inflado sim. Um ego inflado de um professor de Yoga leva-o a pensar que é um ser especial e superior aos demais. Quando alguém lhe pergunta o que ele faz (ou mesmo quando não lhe perguntam) ele exclama aos quatro ventos: Eu sou professor de Yoga!

Lembremo-nos que um professor, mesmo tratando-se de um real professor de Yoga, é apenas um praticante dedicado com alguma experiência num assunto, não é um mestre, ainda tem caminho para percorrer. Essa arrogância que é verificada em muitos professores advém de uma identificação com esse papel, o de professor. Quando o professor de Yoga é também vegetariano pode tornar-se duplamente arrogante com os outros, ao considerar que também o facto de comer vegetais é sinónimo de pessoa mais iluminada.

Relembro aqui uma frase que gosto muito do professor Iyengar: “Quando passamos a sentir-nos apartados dos outros ou superiores a eles, mais puros ou mais elevados por causa do Yoga, é certo que entrámos na calmaria ou estamos à deriva, sendo arrastados de volta a um estado de ignorância”.



O professor sabe-tudo

Dentro da comunidade “Professor de Yoga” encontramos de tudo. E uma dessas categorias é o professor “sabe-tudo”. O professor sabe-tudo é aquela pessoa que, por saber de Yoga, pensa que o Yoga pode ajudar toda a gente por exemplo. Esta pessoa aventura-se em áreas delicadas, como lidar com pessoas com doenças mentais, problemas graves de saúde, entre outros, pensando que o Yoga as poderá salvar. Ora, lembremo-nos que o Yoga serve para nos ajudar no nosso caminho para moksha, a libertação, tudo o resto é secundário. Os efeitos terapêuticos do Yoga são reais, mas esse não é o seu objectivo principal e para além disso, para se praticar Yoga são necessárias vontade e consciência por parte do praticante, senão que raio de Yoga estará a fazer?

Porquê querer que o Yoga sirva para tudo? Para quê querer levar o Yoga a todas as pessoas, mesmo àquelas que não o pedem nem têm capacidade para tal? Para quê metermo-nos em áreas que já têm especialistas, pessoas que se dedicam àquilo? Porque não nos concentramos naquilo a que o Yoga se propõe? Será que não é suficiente?

Porque esse professor de Yoga (o do ego inflado) quer protagonismo. Pensa que por saber meia dúzia de ásanas e pránáyámas pode ajudar todas as pessoas. Pode-se pensar que tem boas intenções por querer ajudar o outro mas, na realidade o que o move é a sua auto-promoção e por vezes inocência misturada com ignorância e teimosia, também.

Provavelmente é aquele mesmo professor que gosta de ser o centro das atenções numa conversa. Fala muito, não consegue estar em silêncio e ouvir os demais, quer expor todos os seus pontos de vista (que são muito válidos pois afinal ele é professor de Yoga), fala, fala e fala, das “suas” teorias, das “suas” descobertas, das “suas” façanhas, dos “seus” alunos, das suas aulas, dos cursos que dá, dos eventos que realiza…

O professor sabe-tudo é também aquele que, estando a praticar numa aula ministrada por um outro professor, gosta de olhar para os outros enquanto praticam. Mas ele não se limita a dar uma espreitadela, ele olha com os olhos de professor, não com os de praticante que deveria ser naquela altura, para ver o que a turma está a fazer. Muitas vezes ele ainda se aventura a corrigir os alunos, a dar dicas, a parar sua prática para ir mexer em alguém ou mandar opiniões para o ar. Ele simplesmente não consegue largar o papel de professor, não consegue apenas praticar descansado e concentrado. É uma situação chata, pois tanto o real ministrante como os demais praticantes sentem-se incomodados com aquele intruso, que não é nem praticante nem o professor daquela prática (ou palestra, ensinamento, etc.).


Tenho muitos livros, um certificado passado na Índia e consigo colocar o pé atrás da cabeça!

Existem professores de Yoga que gostam de acumular livros sobre Yoga nas prateleiras de sua biblioteca. Vão comprando e comprando com a esperança de nalgum dia poderem lê-los ou simplesmente porque ter muitos livros, pensam eles, já é sinónimo de conhecimento. E quem diz livros, diz todo o tipo de material relacionado com Yoga, cd’s, dvd’s, etc…

Outra situação que pode inflar o ego do professor de Yoga é uma viagem à Índia. Muita gente vai para a Índia em busca de um certificado passado lá por um “guru” qualquer, para depois voltar e poder dizer que praticou Yoga na Índia com um indiano, como se a simples viagem à Índia fosse sinónimo de evolução.

Nos últimos anos o Yoga vem ganhando cada vez mais adeptos e muito se deve ao aspecto mais superficial da prática, o ásana. Grande parte dos praticantes, especialmente no ocidente, baseia a sua prática de Yoga na parte corporal. Desenvolveu-se todo um arsenal de posturas e acessórios para realizar as posturas na perfeição e ficou esquecido a parte da meditação, do ensinamento, dos valores e da tradição. Vê-se grandes executantes de ásanas, dedicando-se anos e anos a aperfeiçoar o alinhamento do dedo mínimo do pé, um centímetro mais aqui ou mais ali. Metem o pé atrás da cabeça mas tropeçam nos yamas e niyamas.

Eu reparo que a maior parte desse pessoal vai ficando cada vez mais quadrado, mais viciado e fechado naquilo, vivendo para aperfeiçoar o seu corpo, tentando ganhar a todo o custo (mesmo de lesões) mais uns centímetros de alongamento, mais força, alimentando seu ego, obcecados com a forma ou na esperança de ter um corpo imortal. Temos por aí professores muito bons a realizar posturas mas ao mesmo tempo fora do contexto do Yoga, longe daquilo a que o Yoga se propõe, longe do conhecimento.

Falta humildade e simplicidade nos professores de Yoga. Chega a um ponto em que deixam de praticar com outros professores. Muitos rejeitam a ideia de um mestre que os possa ensinar e ajudar no caminho para moksha. Eles acham-se sabedores. Muitos simplesmente param de aprender, estagnam, ficam demasiados orgulhosos para se “submeterem” ao ensinamento de alguém. “Quem é esse professor para me ensinar?” dizem eles.

Ao professor quadrado falta-lhe adaptabilidade e aceitação, de si mesmo e de tudo o que o rodeia. Gosta de criticar as pessoas (não yogis, ou yogis de outra espécie), o sistema e o mundo em geral. É aquela mesma imagem de alguém todo alternativo e contra o sistema mas bebendo Coca-Cola e fumando Marlboro. Se vai a uma aula em que lhe seja sugerido algo diferente (digamos apoiar a mão em cima de um bloco num trikonásana), torce-se todo por dentro, evita fazer e se tiver mesmo que fazer o seu orgulho fica ferido, como se usar um bloco fosse sinal de deficiência. É o mesmo professor que não gosta de ser corrigido ao praticar, espera sempre que a sua prática seja perfeita e suas palavras repletas de interesse. Sente um arrepio na espinha e uma irritaçãozinha quando alguém lhe põe as mãos em cima para o ajudar.


Uma marca chamada Yoga

Com a crescente proliferação do Yoga no ocidente, surgiram todo o tipo de métodos. Existe Yoga para tudo, para homens, mulheres, crianças, bebés, cães, gatos, empresários, desportistas, homossexuais, pessoas assim e assado, todos os estilos, todas as formas… mistura-se tudo, Yoga com Pilates, com surf, com tai-chi, com dança, com religião, com massagens… Hoje o Yoga é um ingrediente fundamental na salada russa da moderna espiritualidade ocidental.

Então o Yoga termina sendo um produto, uma marca, e muito rentável por sinal. E como vivemos num mundo competitivo e porque faltam coisas fundamentais na formação do professor de Yoga, este tende a tornar-se competitivo também. Mais dia menos dia terá que inventar o “seu” Yoga, inventando novas técnicas, novas acrobacias, coisas arriscadas e espectaculares de preferência. Métodos “secretos” de meditação e iluminação que só podem ser passados a alguns em retiros de iniciação para pessoas avançadas (aqueles que têm mais dinheiro para pagar).

Esse tipo de professor é aquele que gosta de aparecer na TV, nos jornais, em tudo que mexa com exposição pública, para poder vender melhor o seu produto, o Yoga. Esse professor torna-se num empresário, veste fato e gravata se for preciso, passa o dia a distribuir flyers na rua e a pensar em novas maneiras de atrair clientes. Porque para ele e para que o negócio do Yoga renda, os alunos não passam de clientes.

E com toda esta competição aberrante têm que se formar mais instrutores, para que estes alimentem os que estão mais acima na pirâmide. E ao formarem-se mais professores (e na maioria dos casos professores sem base, sem estrutura), mais difícil é arranjar trabalho, e quando isso acontece o professor sujeita-se a qualquer coisa. Trabalha em dez locais diferentes, passa o dia a viajar de um lado para o outro, deixa de fazer a sua prática pessoal, deixa de estudar, não tem tempo para nada, apenas para fazer uns gestos mecânicos ao som de música new age.

E é aí que surge a conversa do: “Meu Yoga é melhor que o teu, é o mais completo, o mais perfeito, o mais antigo!”. “O meu mestre é o melhor e o mais iluminado do mundo”. O que resta do Yoga? Daquilo que representa o Yoga? Nada, ou quase nada. Os valores perdem-se, alimentam-se as diferenças e as guerras de personalidade. E o pior de tudo é que isso é transmitido aos praticantes de Yoga, àquelas pessoas que de forma genuína buscam o verdadeiro Yoga.


Os equívocos e as distracções

Sempre penso que muito daquilo que tenho estado a escrever deve-se à crescente falta da prática e do estudo do Yoga por parte do professor de Yoga. É essencial o professor continuar a manter a sua prática pessoal, o seu estudo, o aprender com outros professores. Tudo isso mantém-nos purificados, centrados, alinhados para podermos, pouco a pouco, aprofundar no conhecimento do Ser que somos.

Muitos dos equívocos que surgem no seio do Yoga devem-se à falta do contexto, ao esquecermo-nos que há uma tradição que tem milhares de anos, ao esquecermo-nos que há um ensinamento de valor incalculável, ao esquecermo-nos que houve alguém que nos ensinou e outros que continuam a ensinar.

Por toda esta tradição, por tudo isto que nos foi dado, por este privilégio que é poder praticar e ensinar o Yoga, temos uma grande responsabilidade em mãos, temos o dever de ensinar de forma correcta e adequada a cada aluno. Não fazer dos alunos cobaias das nossas invenções e inseguranças. Não ter falta de cuidado na hora de ajustar o aluno, estar focado para que nada de menos bom aconteça. Muito menos cultivar aquela atitude de professor durão que chega à aula e quer pôr o pessoal todo a suar. Tem professor de Yoga que gosta de fazer aulas muito duras só para que os alunos, ao terminarem a classe, comentem que ele é duro e exigente e no dia seguinte possam sentir os músculos do corpo todos doridos. Não cair na tentação de fazer ajustes muito fortes só porque metemos na cabeça que aquele aluno tem que fazer o ásana que está no livro.

Não há maior equivoco que a ideia de que um bom professor de Yoga é aquele que faz os ajustes mais fortes e dá as aulas mais puxadas.

O ego do professor de Yoga também pode resultar numa atitude de insegurança. É o exemplo típico do professor que não faz mantra na aula pois tem vergonha e receio do que os alunos vão pensar. Se ele já faz o mantra habitualmente mas entra um aluno novo lá vem de novo o embaraço… Temos que ensinar aquilo que aprendemos, gostamos e sabemos. Não podemos fazer uma aula puxada só porque um aluno gosta de malhar nem uma aula toda deitados porque um outro só quer descomprimir do dia de trabalho. Não podemos ter receio de perder alunos, esse é um dos maiores medos do professor de Yoga, ele vive sobressaltado com a ideia de perder alunos e com isso o dinheiro para pagar suas despesas. Ele não confia nas suas capacidades e muito menos na ordem natural do universo.

O meu professor Pedro Kupfer sempre diz que não há coisa pior num professor de Yoga que ser chato. Ninguém quer praticar com um professor chato, com aquele chato que chega todos os dias na aula com cara séria para impor respeito. Aquele professor arrogante que gosta de impor e exigir demais das pessoas, que quer que as pessoas sejam como ele, ou melhor, com a ideia distorcida que ele tem de si mesmo como sendo um super humano.

Esquecemo-nos facilmente que só existe professor quando há aluno. É o aluno que dá sentido ao papel do professor. São os alunos que nos permitem continuar neste caminho abençoado, que é o de praticar e ensinar o Yoga. Com eles aprendemos sempre muito e graças a eles mantemo-nos em estreito contacto com o ensinamento que estamos a passar.


Qualidades a serem observadas no bom professor de Yoga

Mas como se costuma dizer “enquanto há vida há esperança”, enquanto vivermos temos sempre oportunidades para nos melhorarmos e crescermos no Yoga. Assim, penso ser importante cultivar algumas coisinhas, que nada mais são que o aplicar da ética do Yoga, os famosos yamas e niyamas, ou os valores descritos na Bhagavad Gitá.

É importante que nós, professores de Yoga, tenhamos a capacidade de falar e ensinar ao nível das pessoas. De pouco adianta usarmos termos complicados que a pessoa não irá entender, nem tampouco tentar ensinar e dar aquilo que a pessoa não quer ou não precisa nesse momento. Devemos desenvolver a compaixão pelos outros, tornamo-nos em contribuidores (expressão que o Swami Dayanandaji muito repete) na sociedade onde vivemos.

Como bem ensina Patañjali devemos desenvolver uma atitude de compaixão perante aqueles que sofrem, amizade perante os que estão felizes, neutralidade perante quem realiza acções equivocadas e alegria perante os que realizam acções virtuosas. Tudo isto, bem como o cultivar a não-violência, a verdade, etc., resultam do principio básico do dharma: não fazer aos outros o que não gostamos que nos façam a nós. E para isso tem que haver um entendimento profundo e completo do valor dos valores e para esse entendimento acontecer temos que observar-nos constantemente durante o dia, em todos os momentos, em todas as acções.

Cultivar o belo valor de kshánti, a aceitação, o saber acomodar todas as pessoas, independentemente da sua história, das suas acções e reacções. Ao libertarmos a pessoa de nosso julgamento libertamo-nos a nós próprios e não há nada na vida que o yogi mais preze que a liberdade e simplicidade. Se não conseguimos acomodar as pessoas viveremos com o peso das expectativas e frustrações que, equivocadamente, projectamos nessas pessoas.

Ensinar aquilo que sabemos, fazermos a nossa prática pessoal, continuar a praticar e aprender com o nosso professor e outros que sejam um exemplo vivo daquilo que representa o Yoga. Respeitar e honrar a tradição do Yoga e não utilizar o Yoga para fins egoístas.

Termino com uma sábia frase do Swami Dayananda: “Íshvara, possa eu desfrutar e ter a maturidade de aceitar simplesmente o que não posso mudar, a vontade e o esforço para mudar o que posso, e a sabedoria para saber a diferença”.
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domingo, outubro 18, 2009

PRÓXIMOS CURSOS

8 de Novembro, no Centro de Yoga Lótus, Matosinhos




14 de Novembro, no YogaShala, Almada





quarta-feira, setembro 23, 2009

TESTEMUNHANDO O SÚRYA NAMASKÁR


Coloco-me na frente do tapete. Em pé sinto a mente serena e o corpo quente após ter feito o aquietamento inicial, a vocalização do shanti pathah e de umas séries de nauli. Construo o samasthiti, activando o múla e uddiyana bandhas e mantendo o suave sussurro da respiração ujjayí. Alinho todo o corpo, desde as plantas dos pés até ao alto da cabeça, como se algo me estivesse puxando para cima, traccionando e proporcionando-me uma sensação de leveza.

Preparo-me para fazer súrya namáskar, a saudação ao sol. O ego recebe com agrado esta decisão pois é das técnicas que mais aprecia mas, ao mesmo tempo, porque me proporciona momentos de concentração, fluidez e não-identificação com os pensamentos e acções.

Escuto o som do ujjayí preenchendo os pensamentos, o corpo e todo o espaço envolvente. A atenção volta-se para dentro, é como se existisse apenas esse som, que me lembra o ir e vir das ondas do mar, e uma força que me mantém alinhado.

Expiro todo o ar, observando como o vazio respiratório me influencia e depois inspiro erguendo os braços pelos lados até juntar as palmas das mãos acima da cabeça em añjali mudrá. O rosto está elevado e foco o olhar nesse gesto. Nessa fracção de segundo que antecede a expiração, enquanto mantenho o urdhva hastásana, humildemente saúdo e entrego a prática a Íshvara (arquétipo do yogi), a inteligência por detrás da minha existência.

Expiro e curvo-me em uttanásana aproximando o tronco das pernas, aproximando-me de mim mesmo. Inspiro e afasto o tronco das pernas, crescendo e esticando-me na segunda variação de uttanásana. Os bandhas mantêm o corpo quente, alinhado e leve.

Expiro e monto o ashva shañchalanásana levando um pé para trás, as pontas dos dedos das mãos tocam o chão, mas tão levemente que não há peso nelas. O corpo cresce desde o calcanhar do pé detrás até ao topo da cabeça numa linha diagonal ascendente.

Inspirando desloco o outro pé para trás ficando com o corpo em prancha (chatuspadásana), estabilizado e congelado na posição como se de uma estátua se tratasse. Com essa firmeza expiro em chaturanga dandásana, suspendendo-me a uns centímetros do solo, paralelo a este. Este ásana desperta em mim uma dupla sensação: por um lado um crescer da força de vontade (devido ao esforço muscular) e por outro o de prostração em relação a íshvara (por me aproximar do chão, da terra).

Inspiro e empurro o chão com os braços, esticando-os, abrindo o peito e crescendo para o céu em úrdhva mukha shvanásana. Só existe movimento, movimento que não controlo, apenas acontece e eu testemunho.

Expirando formo uma montanha com o corpo, onde a partes inferior e superior do corpo crescem encontrando-se num vértice que aponta para cima. Ajusto o adho mukha shvanásana, preparando-me para fazer cinco respirações lentas e profundas. Um… o som da respiração traz a atenção para o momento. Dois… uma sensação de levitação ou suspensão surge, é como se algo me puxasse. Não sinto o corpo, como se este não existisse ou como se tudo à volta fosse esse corpo. Três… a identificação com o corpo-mente vai-se dissipando, dissolvendo-se no calor dos bandhas e do som do ujjayí. Quatro… perco a noção do tempo e do espaço, os sentidos voltam-se para dentro, portas se fecham levando-me a um espaço não definido, ilimitado. Cinco… há uma moldagem espontânea e sem esforço ao tapete, sentindo a sua textura nos pés e mãos.

Inspiro e trago um dos pés para a frente pousando-o entre as mãos. A sensação continua, a fluidez e o silêncio corporal transportam-me para uma nova posição. Expiro afirmando-me e aterrando no chão para depois inspirar e juntar os pés novamente em uttanásana. Nesta altura estou completamente presente em cada movimento, cada músculo, cada acção. Expiro e inclino-me para trás sentindo a abertura da parte posterior das pernas e coxas.

Inspirando cresço e levo os braços ao alto, tocando a ponta da língua no palato mole (jíhva bandha) e relembro o sentimento de saudação. Expiro e volto ao samasthiti, o ponto onde tudo começou, onde tudo retorna e onde me preparo para continuar a fluir no súrya namáskar… tudo pára, o corpo expande-se e contrai-se, pulsando, vibrando…

Nos ciclos seguintes a saudação ao sol torna-se numa roda, girando ritmadamente, onde me consigo destacar do movimento, observando-o acontecer desde o centro dessa roda…

terça-feira, setembro 15, 2009

quinta-feira, setembro 03, 2009

INTENSIVO DE YOGA NOS AÇORES

Semana intensiva de Yoga nos Açores, Ilha de Santa Maria

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Práticas de Yoga nos Açores


Segunda a sexta-feira, de 7 a 11 de Setembro, das 18h00 às 20h00

Prática completa de Yoga com:
- Mantra – cânticos milenares
- Shat Karma – técnicas de purificação
- Ásana – técnicas corporais
- Yoganidrá – relaxamento profundo
- Pránáyáma – controle e expansão do alento vital (prána) através de exercícios respiratórios.
- Meditação

(Todos os dias as práticas são diferentes, tanto nas técnicas utilizadas, combinação das mesmas e intensidade)





Workshops Sábado, 12 Setembro

10h às 12h: A importância do alinhamento nos ásanas (técnicas corporais)
- Treino e estudo de algumas posições essenciais no Yoga
- Alinhamento e correcção postural

14h às 17h: Reflexão sobre o Yoga de Patañjali
Os Yoga Sútras ("Aforismos do Yoga"), antigo tratado de Yoga da autoria de Patañjali, é uma das mais importantes e antigas obras escritas sobre Yoga. São um autêntico "mapa" para o praticante explorar, conhecer e ir mais além dos aspectos densos e subtis do complexo corpo-energia-mente-ego-intelecto.
Eles são sobretudo instruções precisas e exactas, resultantes de séculos de aprofundamento e experiência por parte dos yogis antigos, de como o praticante pode chegar a conhecer-se a Si Mesmo. Os sútras são antigos mas ao mesmo tempo incrivelmente actuais, pois o ser humano continua a deparar-se com os mesmos problemas existenciais.


Workshops de Domingo, 13 de Setembro

10h às 12h: Vinyasa Krama Yoga
O Vinyasa Krama é um método sistemático para estudar, praticar, ensinar e adaptar o Yoga. É uma antiga prática física e espiritual de desenvolvimento humano. O Vinyasa Krama Yoga integra corpo e mente através da respiração. A mente ao seguir a respiração torna-se parte de todo o processo, levando o praticante a um estado de aquietamento profundo.


14h às 17h: Pránáyáma, Yoganidrá e Meditação
- Reeducação respiratória
- Treino de alguns pránáyámas (técnicas respiratórias) essenciais
- Dicas para fazer um yoganidrá (relaxamento) profundo
- Prática de um longo yoganidrá
- Prática de meditação




Material a levar:
Tapete de prática anti-derrapante
Manta quente para o relaxamento
Almofada ou zafu para sentar na meditação
Bloco de notas e caneta (para os workshops)

Valores:
25eur - só fim de semana ou só semana (10 horas)
40eur tudo (20horas)
10eur uma aula avulso (se houver lugar)